Diabetes em Portugal:
Estima-se que mais de um milhão de portugueses vivam com diabetes — e milhares permanecem sem diagnóstico. Este guia aborda tudo o que precisa de saber: causas, sinais de alerta, os melhores tratamentos disponíveis hoje, a importância das consultas regulares, e as terapêuticas emergentes que poderão transformar os cuidados à diabetes nos próximos anos.
A diabetes é uma das doenças crónicas mais prevalentes em Portugal — e uma das mais subdiagnosticadas. É frequentemente descrita como uma "doença silenciosa" porque a diabetes tipo 2, responsável por mais de 90% dos casos, pode desenvolver-se lentamente ao longo de vários anos sem sintomas perceptíveis. Quando o diagnóstico é feito, a doença está muitas vezes presente há algum tempo.
A boa notícia é que a diabetes é altamente controlável. Com o diagnóstico correcto, o tratamento adequado e uma vigilância regular, as pessoas com diabetes podem viver de forma plena e saudável. E com os avanços notáveis verificados na última década — em especial o surgimento dos agonistas do receptor GLP-1 e dos inibidores SGLT2 — as opções clínicas disponíveis em Portugal são hoje as melhores de sempre.
Secção 01
A Diabetes em Portugal: Compreender a Dimensão do Problema
De acordo com o Relatório do Programa Nacional para a Diabetes — Desafios e Estratégias 2025, publicado pela Direção-Geral da Saúde (DGS), existiam 936.987 pessoas com diabetes diagnosticada nos cuidados de saúde primários no final de 2024 — o valor mais elevado de sempre — correspondendo a 8,9% dos utentes inscritos no SNS. O mesmo relatório registou 80.915 novos casos diagnosticados apenas em 2024. O Diário da República, através do Despacho n.º 3390/2025, estima que a diabetes afecte mais de um milhão de portugueses no total, incluindo casos por diagnosticar, sendo uma das taxas de prevalência mais elevadas na União Europeia.
Fonte: DGS — Programa Nacional para a Diabetes, Desafios e Estratégias 2025; Diário da República, Despacho n.º 3390/2025.
O relatório da DGS destaca que, apesar do crescimento do número de diagnósticos, se verificou uma melhoria no controlo metabólico e uma redução da mortalidade total e prematura associada à doença — sinal do impacto positivo dos programas de rastreio e dos tratamentos mais modernos. Ainda assim, a diabetes continua a estar presente em cerca de um terço dos episódios de enfarte agudo do miocárdio e de acidente vascular cerebral (AVC) em Portugal.
Secção 02
Tipos de Diabetes
Nem toda a diabetes é igual. Compreender o tipo que tem — ou para o qual está em risco — é o primeiro passo para uma gestão eficaz.
Secção 03
Causas e Factores de Risco
Diabetes Tipo 1
A causa exacta da diabetes tipo 1 permanece incompletamente compreendida. É uma doença autoimune — o sistema imunitário do organismo ataca e destrói erroneamente as células beta do pâncreas, responsáveis pela produção de insulina. Os factores genéticos desempenham um papel, assim como, possivelmente, a exposição a determinadas infecções virais. Em Portugal, a investigação nesta área é desenvolvida por centros como a APDP — Associação Protectora dos Diabéticos de Portugal e por grupos de investigação da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa e da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto.
Diabetes Tipo 2
A diabetes tipo 2 tem um conjunto de causas mais complexo e modificável, combinando predisposição genética com factores de estilo de vida e ambientais. O mecanismo central é a resistência à insulina — em que as células do organismo deixam de responder eficazmente à insulina — associada a um declínio progressivo na capacidade do pâncreas de compensar com uma maior produção.
Secção 04
Sinais e Sintomas
Os sintomas variam consideravelmente entre a diabetes tipo 1 e a tipo 2. A tipo 1 apresenta-se muitas vezes de forma aguda — com aparecimento rápido de sintomas que podem indicar cetoacidose diabética (CAD), uma emergência médica. A tipo 2, pelo contrário, desenvolve-se tipicamente de forma lenta e silenciosa ao longo de anos, com sintomas tão subtis ou graduais que muitas pessoas os atribuem ao envelhecimento, ao stress ou ao cansaço.
Secção 05
Tratamentos Actuais para a Diabetes em Portugal
O tratamento da diabetes passou por uma verdadeira revolução na última década. Em Portugal, o Programa Nacional para a Diabetes da DGS define as orientações clínicas nacionais, alinhadas com as recomendações internacionais da American Diabetes Association (ADA) e da European Association for the Study of Diabetes (EASD). Em Fevereiro de 2025, as bombas de insulina passaram a ser dispensadas nas farmácias comunitárias em Portugal — um marco relevante no acesso ao tratamento da diabetes tipo 1.
Modificação do Estilo de Vida — A Base de Todo o Tratamento
Para a diabetes tipo 1 e tipo 2, o estilo de vida é o alicerce da gestão da doença. Para a tipo 2 em particular, a mudança alimentar e o aumento da actividade física podem reduzir significativamente a HbA1c, melhorar a sensibilidade à insulina e, em alguns casos — nomeadamente após cirurgia bariátrica ou dietas de muito baixo aporte calórico — conduzir a uma remissão sustentada. A APDP e as consultas de nutrição e enfermagem nos centros de saúde do SNS oferecem apoio estruturado para a gestão do estilo de vida em todo o país.
Tratamento Farmacológico
As seguintes classes de medicamentos estão disponíveis em Portugal. As decisões terapêuticas são individualizadas — as orientações da DGS, da ADA 2025 e da EASD sublinham uma abordagem centrada no doente que considera o risco cardiovascular, a função renal, o peso e as preferências individuais.
Secção 06
A Importância das Consultas Regulares
A diabetes é uma doença crónica que evolui ao longo do tempo, e as suas complicações — se não forem detectadas — podem ser graves e irreversíveis. A retinopatia diabética é uma das principais causas de cegueira na população adulta em Portugal. A nefropatia diabética é um dos maiores determinantes da doença renal crónica terminal. A neuropatia periférica origina complicações do pé que, nos casos mais graves, podem resultar em amputação. A taxa de amputações do pé diabético em Portugal mantém-se elevada, de acordo com o relatório da DGS de 2025, apesar do rastreio do pé ter sido realizado em 83% dos utentes com diabetes.
A investigação de décadas demonstra que todas estas complicações são amplamente preveníveis — ou significativamente atrasadas — com um bom controlo glicémico, gestão da pressão arterial e vigilância regular. A consulta de diabetes anual estruturada é uma das intervenções com melhor relação custo-eficácia em toda a medicina.
O Que Deve Incluir a Sua Consulta Anual de Diabetes
- Avaliação da HbA1c (média de glicemia dos últimos 3 meses)
- Medição da pressão arterial e revisão da terapêutica anti-hipertensora
- Função renal — taxa de filtração glomerular estimada (TFGe) e rácio albumina/creatinina urinária
- Colesterol e perfil lipídico completo
- Avaliação do peso e do IMC
- Exame dos pés — incluindo avaliação de pulsos e sensibilidade
- Rastreio da retinopatia diabética — pelo Programa Nacional de Rastreio coordenado pela DGS
- Revisão e ajuste da medicação, se necessário
- Avaliação da adesão ao plano de autogestão da diabetes
- Avaliação do estado tabágico e apoio à cessação tabágica, se aplicável
- Vacinação anti-gripal (fortemente recomendada para pessoas com diabetes)
Rastreio para Quem Ainda Não Tem Diagnóstico
Se tem factores de risco para a diabetes tipo 2 e nunca foi avaliado, o seu médico de família pode solicitar uma glicemia em jejum ou uma HbA1c — análises simples realizadas nos laboratórios do SNS. Isto é especialmente importante se tem mais de 45 anos, história familiar de diabetes, pressão arterial elevada ou teve excesso de peso durante a gravidez. A detecção precoce de pré-diabetes proporciona uma janela de oportunidade real para prevenir ou adiar o aparecimento da diabetes tipo 2 através de mudanças no estilo de vida.
Secção 07
O Futuro do Tratamento da Diabetes
O ritmo de inovação na medicina da diabetes é sem precedentes. Várias áreas de investigação — algumas já em ensaios clínicos avançados — têm o potencial de transformar fundamentalmente o que significa viver com diabetes na próxima década.
A investigação sobre terapia com células estaminais para a diabetes tipo 1 é analisada em detalhe numa publicação de 2025 em PMC (PMID: PMC12689004), que conclui que "a terapia com células estaminais oferece uma estratégia dupla: regeneração das células beta produtoras de insulina e regulação das respostas imunitárias." Embora uma cura definitiva permaneça como meta futura, a direcção da investigação é a mais promissora de sempre.
Secção 08
Instituições e Recursos de Referência em Portugal
Se vive com diabetes em Portugal, ou está preocupado com o risco de a desenvolver, as seguintes organizações e serviços são os seus principais pontos de referência para cuidados clínicos, educação e apoio.
DGS — Programa Nacional para a Diabetes
O Programa Nacional para a Diabetes da Direção-Geral da Saúde é a referência nacional para a política e orientações clínicas em diabetes em Portugal. O relatório anual — cuja edição de 2025 apresenta dados actualizados a 2024 — é o documento de monitorização mais abrangente sobre diabetes em Portugal, cobrindo prevalência, rastreio, tratamento e mortalidade. As orientações clínicas nacionais, alinhadas com as recomendações europeias e internacionais, estão disponíveis no portal da DGS.
APDP — Associação Protectora dos Diabéticos de Portugal
A APDP, fundada em 1926, é a principal instituição de referência para pessoas com diabetes em Portugal. Oferece consultas especializadas, programas de educação terapêutica, apoio nutricional, rastreio da retinopatia diabética e investigação clínica. A APDP realiza rastreios de proximidade da retinopatia diabética em colaboração com a ARS Lisboa e Vale do Tejo há cerca de 20 anos, contribuindo de forma determinante para a prevenção da cegueira evitável em Portugal.
Linha SNS 24 — 808 24 24 24
A Linha SNS 24 (808 24 24 24) está disponível 24 horas por dia e oferece triagem de saúde, orientação clínica e encaminhamento para os serviços adequados. Para situações de urgência, ligue sempre para o 112.
SPEDM — Sociedade Portuguesa de Endocrinologia, Diabetes e Metabolismo
A SPEDM é a sociedade científica que agrega os especialistas em endocrinologia e diabetes em Portugal. Publica orientações clínicas, organiza formação médica contínua e representa Portugal nas redes europeias e internacionais de investigação em diabetes.
Secção 09
Perguntas Frequentes
De acordo com o Relatório do Programa Nacional para a Diabetes — Desafios e Estratégias 2025 da DGS, existiam 936.987 pessoas com diabetes diagnosticada nos cuidados de saúde primários no final de 2024, correspondendo a 8,9% dos utentes inscritos no SNS. Foram registados 80.915 novos casos em 2024. O Diário da República (Despacho n.º 3390/2025) estima que a diabetes afecte mais de um milhão de portugueses no total, sendo uma das taxas de prevalência mais elevadas na União Europeia.
Os sinais mais comuns incluem sede excessiva, urinar com frequência (especialmente à noite), cansaço persistente, visão turva, cicatrização lenta de feridas, fome constante mesmo depois de comer, e formigueiro ou dormência nas mãos e pés. A diabetes tipo 2 pode desenvolver-se de forma lenta e silenciosa — muitas pessoas não têm sintomas durante anos antes do diagnóstico. Se tem factores de risco, fale com o seu médico de família sobre a realização de uma glicemia em jejum ou HbA1c mesmo na ausência de sintomas.
A diabetes tipo 1 é uma doença autoimune em que o sistema imunitário destrói as células beta produtoras de insulina no pâncreas, exigindo insulinoterapia para toda a vida e apresentando-se habitualmente na infância ou na idade adulta jovem. A diabetes tipo 2 ocorre quando o organismo se torna resistente à insulina ou não produz insulina suficiente — está fortemente associada a factores de estilo de vida como alimentação, sedentarismo e excesso de peso, e representa mais de 90% dos casos em Portugal. As duas condições têm causas, tratamentos e cursos clínicos diferentes, embora ambas exijam uma gestão cuidadosa para evitar complicações.
O tratamento de primeira linha inclui normalmente a metformina associada a modificações do estilo de vida. As classes de medicamentos mais recentes — em particular os agonistas GLP-1 (como a semaglutida/Ozempic) e os inibidores SGLT2 (como a empagliflozina/Jardiance) — revolucionaram o tratamento por reduzirem a glicemia e simultaneamente protegerem o coração e os rins e promoverem a perda de peso. As orientações da DGS e da ADA 2025 recomendam estas classes em doentes com doença cardiovascular estabelecida, insuficiência cardíaca ou doença renal crónica. O tratamento é sempre individualizado — o seu médico irá adequá-lo ao seu perfil específico.
Se tem diabetes diagnosticada, deve realizar pelo menos uma consulta anual estruturada com o seu médico de família — que inclui avaliação de HbA1c, pressão arterial, função renal, colesterol, peso, exame dos pés e rastreio da retinopatia diabética. Medições mais frequentes de HbA1c (a cada 3 a 6 meses) são recomendadas se o controlo glicémico não estiver atingido ou se a terapêutica tiver sido alterada. O rastreio da retinopatia está disponível gratuitamente através do Programa Nacional de Rastreio da DGS.
A diabetes tipo 2 pode, em alguns casos, entrar em remissão — definida como a obtenção de valores de glicemia próximos do normal sem medicação — através de perda de peso significativa, frequentemente com dietas de muito baixo aporte calórico ou cirurgia bariátrica. O ensaio DiRECT demonstrou remissão em cerca de 50% dos participantes ao fim de um ano com um programa dietético estruturado. Isto não significa que a tendência subjacente seja eliminada — a remissão exige mudanças sustentadas do estilo de vida para se manter. A diabetes tipo 1 não tem cura actualmente, embora as terapias com células estaminais em ensaios clínicos prometam restaurar a produção de insulina nos próximos anos.
Sim. A Global Health oferece consultas de medicina geral e familiar online com médicos registados na Ordem dos Médicos — incluindo consultas de revisão da diabetes, avaliação de sintomas, revisão de medicação e pedido de análises (incluindo HbA1c, glicemia em jejum e painel metabólico completo). A receita electrónica é emitida via PEM e IMED quando clinicamente indicado, directamente aceite em qualquer farmácia em Portugal. Marque a sua consulta em myglobalhealth.online ou contacte globalhealth@myglobalhealth.online.
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